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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O SENADO E A NEUROLOGIA - continuação

O SENADO E A NEUROLOGIA

“O diabo só é perigoso porque é velho.”
Adágio Popular

Por Waldo Luís Viana*


O seu dilema básico é ser fechada de vez ou passar por reforma radical, o que é impedido por sua estrutura, que privilegia os estados mais pobres, que replicam o patrimonialismo e a corrupção crônica de suas elites.

O neurologista observou-me que o contraste entre os “jovens” senadores – os que não alcançaram os 65 anos – e os demais era de tal modo marcante, que de longe um médico adestrado poderia diagnosticar as doenças cerebrais que os personagens estariam exibindo.


Além disso, a carranca de alguns, os prolapsos abdominais e os próprios esgares da oratória, efetivos para esconder a falta de ideias, denotavam as dificuldades de manter o domínio sobre as orações principais, que mantêm a singularidade e a realidade dos discursos.

Não basta ser alfabetizado para ser parlamentar.

É sabido que o nível de escolaridade é exibido, em plena nudez, quando vemos senadores comendo os “esses”, não concordando verbos e predicados e repetindo platitudes na falta de conteúdos mais profundos.


No entanto, segundo o médico, os maneirismos, as gírias antigas e as palavras ditas pela metade, antes de apenas esconder o pensamento, são modos de revelação dos problemas mentais que afetam cotidianamente os nossos políticos.

– Fico imaginando a dificuldade das estenógrafas para registrar a concatenação desses pensamentos malditos! – exclamei, escarnecendo das imagens que desfilavam sob nossos olhos atentos.

O neurologista disse-me então que o pensamento para ser expresso precisa de uma rede complexa de subsistemas, que vem dos hemisférios cerebrais, do corpo caloso, do sistema límbico (manobrando as emoções) e do aparelho fonador.


Se houvesse alguma complicação no caminho – ensinou-nos – o agente dos pensamentos pareceria meio alienado, com os olhos esbugalhados, a boca mole e a expressão turvada.


Alguns até, prefigurando a véspera de derrames, exibiam sem querer olhos em desalinho, uns mais abertos que outros...

O presidente do Senado terminou a oração trôpega, considerando-se satisfeito com as “explicações” devidas, como se, acima do bem e do mal, estivesse até fazendo uma concessão a seus pares.


Vieram após discursos contraditórios, alguns de apoio, obedientes, e outros, metidos a santarrões acolhedores de uma moral absolutamente alienígena àquela casa de leis.


O Senado, tal como um clube de velhos, revela-nos que falta à política o que se cobra de toda a sociedade nos concursos públicos: exames médicos que comprovem a sanidade daqueles que foram aprovados apenas pelo voto e vão nos dirigir e fazer as leis.


Muitos seriam reprovados, ao longo do mandato, por absoluta inaptidão física e mental.

Mas de que nos serviria tal solução se o que acontece, na prática, é a simples substituição pelos suplentes, figuras ocultas e sem voto, muitas vezes responsáveis pelo apoio financeiro ao titular do mandato...


Afinal, a hipertensão, o diabetes, a obesidade e a arteriosclerose, o mal de Parkinson e o mal de Alzheimer são os inimigos públicos nº 1 desses senadores, que, se conseguem escapar do julgamento e do nojo do povo, não podem fugir ao império da realidade de suas deficiências físicas e cerebrais, facilmente detetáveis no desenrolar de uma sessão plenária naquela casa revisora.

E o que piora mais o estado da saúde mental dos nobres senhores é a proximidade das eleições de 2010, em que 2/3 da casa será renovada, sob o voto majoritário do povo, que se servirá da rara oportunidade para conduzir muitos desses velhinhos à merecida aposentadoria.

E com direito ao auxílio neurológico do meu visitante, que saiu agradecendo a tarde agradável com esse escritor em exílio:

– Talvez lhe encomende uma tese sobre esses evidentes casos médicos do Senado – disse-me o médico, entre sorrisos...

Ao que lhe respondi, num abraço de despedida:


– Será que vale a pena? – interroguei...

É verdade, talvez manche o meu currículo – pontificou, rindo...

Só pude agradecer, por fim, ao nosso amigo comum, que pouco falou e só fazia rir, a oportunidade oferecida por tão rico diálogo.


Pobre televisão...


*Waldo Luís Viana é escritor, economista, poeta e também está ficando velho. Teresópolis, 6 de setembro de 2009


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